Não sou poeta, livro de Victor Heringer [Resenha]
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“Não sou poeta”, de Victor Heringer, é uma coletânea de poemas reunidos em livro pela Companhia das Letras em 2024, organizada por Eduardo Heringer, irmão do autor, que junta grande parte da produção poética de um dos nomes marcantes da literatura brasileira contemporânea, muitos desses poemas inéditos até então.
O livro percorre uma ampla gama temática que vai da contemplação do universo e do cotidiano à reflexão introspectiva sobre a própria existência e o lugar do eu no mundo. Em seus poemas, o autor ora contempla o cosmos, ora desvia o olhar para a jornada terrena, oferecendo uma visão sensível e autêntica do real e do imaginário.
Sumário do post
Estilo do autor

Em “Não sou poeta”, Victor Heringer constrói um estilo de escrita que tensiona constantemente a própria ideia de poesia. Os textos adotam um tom coloquial, quase prosaico, marcado por frases diretas, cortes abruptos e enumerações que simulam o fluxo do pensamento.
Há uma recusa deliberada do lirismo tradicional: o eu lírico se afirma como alguém comum, atravessado por cansaço, ironia e lucidez, sendo uma poesia que se afirma pelo afastamento do gesto poético solene. A aparente simplicidade formal esconde um rigor composicional atento ao ritmo, aos vazios da página e às pausas criadas pelo encadeamento fragmentado dos versos.
A organização póstuma da obra (Heringer faleceu em 2018, aos 29 anos) acrescenta uma dimensão emocional à leitura: o livro funciona como uma espécie de espelho da mente criativa que ficou incompleta, porém profundamente expressiva.
Temas abordados

Em relação à abordagem temática, articula-se o íntimo e o coletivo de maneira incisiva. Heringer fala de morte, desgaste do corpo, relações familiares, trabalho, mídia e violência sem hierarquizar experiências, colocando no mesmo plano a memória pessoal, o brutal e a banalidade do dia a dia.
O efeito é de um mundo saturado de informação e de perdas, em que a subjetividade tenta sobreviver entre manchetes, catástrofes e cenas. O tom é crítico, mas não necessariamente panfletário: a crítica emerge do choque entre registros e da exposição da realidade.
Outro traço marcante é o uso da ironia e da autodepreciação. Ao afirmar “não sou poeta”, o autor parece duvidar de si mesmo, que se reconhece insuficiente diante da abstração do mundo.
A recusa do heroísmo do poeta permeia uma escrita vulnerável, que assume o fracasso, o medo e a impotência como matéria do poema. Ao mesmo tempo, há um humor seco que não torna a leitura meramente melancólica ou confessional. “Não sou poeta” se caracteriza por uma poética do atrito: entre civilização e barbárie, linguagem e silêncio, memória e esquecimento.
O livro propõe uma poesia que não consola nem oferece respostas, mas insiste em evidenciar o desconcerto do presente. Ao fazer isso, transforma a recusa do título em paradoxo: Victor Heringer reafirma uma das formas contundentes e memoráveis de poesia contemporânea brasileira.
Contexto da obra “Não sou poeta”

Escrito em grande parte ao longo da vida literária de Heringer, os poemas foram originalmente publicados de forma dispersa, em plaquetes, páginas da internet, coletâneas menores ou projetos multimídia.
O temperamento de Heringer, percebido tanto em seus versos quanto por relatos de quem o conheceu, era de inquietude criativa, experimentalismo e uma sensibilidade aguda que oscilava entre ternura e ironia mordaz. Ele explora diferentes mídias, das palavras na poesia à fotografia e ao videopoema, mostrando-se um artista curioso que se recusava a ser definido por um único estilo ou gênero.
Embora Heringer tenha conquistado grande parte de seu reconhecimento nacional pelos romances “Glória” (que ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti) e “O amor dos homens avulsos”, sua poesia sempre foi parte essencial de sua obra e de sua identidade literária.
Heringer se tornou um autor consagrado por sua habilidade com a linguagem e pela maneira como suas narrativas e versos capturam questões universais (amor, solidão, identidade e finitude) com uma honestidade rara e sensível.
Ler “Não sou poeta”, além de ser um mergulho nas preocupações e inquietações de um autor único, é também estar imerso na busca humana por sentido e expressão. É um livro que caminha entre a declaração de dúvida e a afirmação estética.
Informações

Livro: Não sou poeta: poesia reunida
Autor: Victor Heringer
Páginas: 375
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2024
Idioma: Português
Sobre o autor
Victor Heringer foi um escritor, poeta, tradutor e cronista brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 27 de março de 1988 e criado em Nova Friburgo. Formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Heringer começou a trabalhar com literatura ainda jovem, publicando sua primeira obra (o livro de poemas “Automatógrafo”) em 2011.
Ao longo de sua carreira, além de romances e poesia, ele escreveu crônicas e traduziu obras para o português. Heringer alcançou grande reconhecimento na literatura brasileira contemporânea, sendo finalista do Jabuti em 2013 pelo romance “Glória”, obra que chamou a atenção da crítica pela maturidade e originalidade ainda tão jovem.
Seu livro “O Amor dos Homens Avulsos” (2016) também foi amplamente elogiado e finalista de importantes prêmios, como o Prêmio Rio de Literatura, o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Oceanos. Em 2017 ele foi incluído pela Forbes Brasil na lista “Under 30” em literatura.
A vida de Heringer foi marcada por uma luta pessoal com a depressão. Em 7 de março de 2018, aos 29 anos, ele foi encontrado morto no Rio de Janeiro, em circunstâncias que chocaram o meio literário, e sua morte precoce interrompeu uma carreira em plena ascensão, deixando projetos inacabados.
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