Atividades para praticar a escrita segundo Annie Ernaux

A escrita é uma habilidade que se desenvolve através da prática constante. Conhecer algumas atividades para praticar a escrita aprimora a técnica e desperta a criatividade, em especial quando esses “métodos” são baseados em escritores de renome, como Annie Ernaux, que venceu o Nobel de Literatura em 2022.

Embora muitas pessoas acreditem que escrever de forma autêntica seja um dom natural, a verdade é que o hábito faz o monge. Uma questão pertinente: como transformar a escrita em um hábito estimulante? Descobrir um caminho para desenvolver a própria voz narrativa pode ser um desafio. Ernaux, por exemplo, conecta memória e escrita autobiográfica.

Qual o estilo de escrita de Annie Ernaux?

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Annie Ernaux desenvolveu uma forma única de escrita que funciona como espelho da experiência pessoal. Sua abordagem combina memória íntima com observação social. A autora francesa usa a “linguagem como uma faca”, conforme ela própria descreve, para dissecar tanto suas vivências quanto a sociedade ao seu redor.

A simplicidade marca profundamente sua narrativa, mas não se trata de uma simplicidade ingênua. A autora constrói frases diretas e precisas que revelam complexidades nem sempre perceptíveis à primeira vista. 

A “postura de escrita” da autora prioriza a verdade crua dos fatos. Mas como ela consegue criar textos tão poderosos com linguagem simples? A resposta está na capacidade da autora de conectar o individual ao coletivo, transformando experiências pessoais em reflexões universais. 

Por que escrever a partir da memória?

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Lembra daquela vez em que você ouviu uma música antiga e, de repente, foi transportado para um momento específico da infância? Essa conexão entre memória e escrita é poderosa para desenvolver habilidades textuais.

No livro “A escrita como faca e outros textos”, Ernaux afirma: “Meu método de trabalho se baseia fundamentalmente na memória, que com frequência me abastece com elementos ao escrever”. 

Em outro trecho, ela diz: “Escrevi que a memória é material; talvez ela não o seja para todo mundo, mas para mim ela é concreta ao extremo, restituindo com a maior precisão coisas que vi, escutei, gestos, cenas. Essas ‘epifanias’ constantes são o material de que são feitos meus livros”. 

Ou seja, as atividades para praticar a escrita baseadas na memória permitem explorar as próprias experiências como material de criação, como faz Ernaux nos livros O acontecimento, Uma mulher, Os anos, A outra filha, O jovem, Paixão Simples, O lugar, entre outros. 

O exercício de reconstrução de uma lembrança marcante funciona como um laboratório de autoconhecimento e linguagem. Nesse processo, o autor transita entre o que foi vivido e o que sente no presente ao recordar. 

Mas será que nossa memória é realmente confiável? Explorar o que foi esquecido ou distorcido torna-se um exercício interessante para resgatar, se não o momento exatamente espelhado, ao menos as sensações que prevaleceram. 

Segundo Ernaux: “Preciso da sensação (ou da lembrança da sensação), preciso desse momento em que, desprovida de tudo, nua, a sensação surge. Só então procuro as palavras. Isso significa que a sensação é um critério de escrita, um critério de verdade”. 

Reflexões e lições do livro “A Escrita como Faca”

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O livro de Annie Ernaux “A escrita como faca e outros textos” oferece apontamentos que podem transformar o ato de escrever em um processo orgânico e autêntico. 

O impulso interior, a observação atenta e a disciplina ajudam a criar uma escrita poderosa que conecta experiências pessoais com verdades humanas, revelando o que há de comum nas singularidades. Entenda os detalhes abaixo.

A importância de ouvir o próprio impulso de escrever

Escritores precisam confiar no desejo interno que os move ao colocar palavras no papel, mesmo quando esse impulso parece indefinido ou difuso. Não necessariamente se parte de uma ideia genial, mas de um sentimento que pode permanecer latente por muito tempo.

“Até aqui falei do impulso, das primeiras páginas que, em outro mundo, o mundo da escrita, dão forma ao desejo de mergulhar na exploração da realidade, não o da forma”, relata Ernaux.

Imagine um escritor que sente uma inquietação constante sobre sua adolescência, mas não consegue definir exatamente o que quer dizer. Esse desconforto é um combustível para a criação.

O impulso traz direções antes mesmo da mente racional compreender o caminho. Dessa forma, as atividades para praticar a escrita devem identificar essas sensações. Os sinais aparecem como temas recorrentes nos pensamentos e memórias que insistem em voltar. 

A prática regular de escrita livre, sem julgamentos, ajuda a mapear esses impulsos. Assim, manter um caderno próximo permite capturar esses momentos quando surgem.

Observar a realidade e registrar o ordinário que revela o universal

A observação minuciosa do cotidiano transforma situações banais ou eventos históricos em material literário rico e significativo. Gestos, acontecimentos políticos, conversas e rotinas podem carregar camadas de significado.

Quantas histórias passam despercebidas todos os dias? Prestar atenção aos detalhes aparentemente irrelevantes revela padrões universais da experiência humana. 

No livro “Os anos” da autora, isso fica bem evidente. Em alguns momentos ela fala sobre hábitos de consumo das famílias (partindo implicitamente de sua própria família), que muito se contrastavam entre o que se vivenciou no período pós-guerra e nas décadas seguintes. 

O escritor se torna um arqueólogo do presente, escavando significados e transformando observações em narrativas que encontram lugar na mente de leitores que se identificam com as situações percebidas. 

Escrita disciplinada e coleção de fragmentos

Ernaux é uma escritora disciplinada, como se pode perceber em uma de suas falas no livro “A escrita como faca”. Ela diz que a prisão é estar do lado de fora; e a liberdade, o escritório onde se tranca para escrever. 

A disciplina na escrita não significa rigidez, mas criar estruturas que permitam o fluxo criativo. Pode ser uma prática regular que combine horários fixos ou a flexibilidade para seguir os impulsos criativos quando surgem — ou se valer de experiências mesmo quando os impulsos não estão presentes. Veja o que diz Ernaux:

“O processo costuma ser o seguinte. Em certo momento, sou compelida a escrever algumas páginas, para as quais não defino nenhum objetivo e que não se destinam a ser o início de um texto específico. Eu paro, não sei para onde estou indo, deixo esse fragmento de lado. Mais tarde ele vai se revelar determinante no projeto que, nesse meio-tempo, se tornou mais claro, e de alguma maneira eles vão se unir”. 

Estabelecer uma rotina diária, mesmo que seja apenas quinze minutos, cria um canal aberto entre a consciência e a página. Quanto a ter um diário pessoal, ele funciona como um conjunto de ideias embrionárias que ganham forma sem a pressão de produzir algo acabado. Visto que Annie revisita constantemente suas anotações, ela descobre conexões entre eventos distantes no tempo. 

As atividades para praticar a escrita incluem revisitar documentos antigos, como cartas, fotografias, anotações, e manter registros regulares, como anotar conversas, observações, reflexões diárias.

Para finalizar, recomendo muito a leitura da escritora francesa, mas acredito que o ideal é conhecer algumas de suas obras antes de optar pela leitura de “A escrita como faca”. Sugiro começar por livros como O lugar, O acontecimento ou Os anos.

Leia também: Como praticar a escrita: 15 dicas baseadas em Natalie Goldberg

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