Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques [Resenha]
![Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques [Resenha]](https://soraya-utsumi.com/wp-content/uploads/2025/12/Da-arte-das-armadilhas_-1.jpg)
Em “Da arte das armadilhas”, Ana Martins Marques constrói uma poesia em que cada verso parece calculado para dizer apenas o necessário e, também, dizer muito. O estilo se apoia em uma linguagem aparentemente simples, mas é atravessada por imagens conceituais, que funcionam como pequenas engrenagens de pensamento.
Os poemas não buscam o excesso nem o lirismo grandiloquente; ao contrário, operam no campo do mínimo, do quase silencioso, criando armadilhas sutis para o leitor, que entra esperando delicadeza e sai confrontado com questões profundas sobre o amor, o tempo e a linguagem.
Sumário do post
A poesia como espaço de tensão e reflexão

A autora trabalha com metáforas intelectualmente afiadas. Há um diálogo com mitos, imagens clássicas e referências (como Ícaro ou Penélope) deslocados para um registro íntimo e contemporâneo.
Esses elementos não surgem como ornamento, mas antes como dispositivos de reflexão. Servem para pensar sobre o limite, a queda, a impossibilidade de controle. A forma fragmentada, os versos curtos e a disposição espacial do poema reforçam a ideia de instabilidade e risco, como se o próprio poema estivesse à beira de cair.
O livro evidencia um olhar atento para os gestos mínimos da vida afetiva, transformando situações banais em matéria poética. Ana Martins Marques observa o cotidiano como quem examina um mecanismo delicado: um passo em falso pode ser um evento decisivo.
É uma poesia intimista sem ser necessariamente confessional; o “eu” aparece mais como instância reflexiva, e o leitor se reconhece em sentimentos e conflitos.
Objetos, gestos e pequenas cenas
Em “Da arte das armadilhas”, Ana Martins Marques transforma o que é rotineiro em um terreno fértil para a poesia ao reinventar objetos, gestos e pequenas cenas do cotidiano. Itens aparentemente banais, como relógios, talheres ou uma cômoda, abrem uma janela para dimensões da experiência humana.
A apropriação do que é comum funciona como deslocamento poético: o trivial deixa de ser pano de fundo e passa a atuar como agente de sentido, sugerindo complexidades emocionais que se diluem na superfície do dia a dia. Pequenas cenas são capturadas e transmitidas em versos que levam o leitor a olhar de novo aquilo que frequentemente passa despercebido.
Proximidade e distanciamento

Uma questão interessante em relação ao estilo de escrita da autora no livro “Da arte das armadilhas” é a tensão entre proximidade e distanciamento. Os poemas falam de amor, desejo, perda e convivência, mas evitam o sentimentalismo.
Há uma frieza aparente que, paradoxalmente, intensifica a carga emocional: ao não explicar excessivamente, a poeta instiga o leitor a preencher os vazios. O poema parece simples, mas se fecha sobre quem lê, revelando sentidos.
A autora parece interessada menos em oferecer respostas do que em estimular perguntas, aquelas que permanecem ecoando. A poesia, ao mesmo tempo delicada e afiada, constrói um espaço em que pensar e sentir andam juntos. O resultado é um livro que cativa o leitor pela reverberação sutil que provoca.
Poemas que capturam quem lê
Os poemas de “Da arte das armadilhas” exercem uma atração peculiar sobre o leitor ao funcionar através de uma linguagem aparentemente contida, que, ao mesmo tempo, provoca a reflexão e a sensibilidade.
A poeta estimula o leitor a preencher frestas e a buscar sentido nas “armadilhas” subentendidas ao longo do livro, um gesto que vai além da compreensão imediata. Além disso, a presença de imagens deslocadas para um contexto poético criam uma sensação de surpresa e expectativa.

Sobre a autora
Ana Martins Marques é uma poeta brasileira nascida em 1977 em Minas Gerais. Formada em Letras e com mestrado e doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela se consolidou como uma voz relevante da poesia contemporânea no Brasil.
Seu livro “Da arte das armadilhas” (2011), foi vencedor do Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional em 2012. Já “O livro das semelhanças” (2015) recebeu o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e ficou em terceiro lugar no Prêmio Oceanos em 2016.
“Risque esta palavra” (2021) foi finalista do Prêmio Oceanos e do Prêmio Jabuti, além de ter sido vencedor do Prêmio APCA. Mais recentemente, o livro “De uma outra ilha” (2024) foi finalista do Jabuti.
PS.: #anúncio
Os livros que recomendo contêm links que divulgo como associada da Amazon. Só recomendo livros que leio e que despertam meu interesse genuíno pela obra.





![Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques [Resenha]](https://soraya-utsumi.com/wp-content/uploads/2025/10/como-usar-o-linkedin-da-melhor-forma-320x320.jpg)
![Da arte das armadilhas, de Ana Martins Marques [Resenha]](https://soraya-utsumi.com/wp-content/uploads/2026/01/Nao-sou-poeta-Victor-Heringer-capa.jpg)