Um teste de resistores, livro de Marília Garcia [Resenha]

“Um teste de resistores” (7Letras, 2014), da autora Marília Garcia, é um livro de poesias que tangencia o experimental. Embora se apresente como coleção de poemas, sua estrutura dialoga também com o ensaio filosófico e o diário reflexivo. É um espaço híbrido entre gênero poético e reflexão sobre experiências pessoais e o próprio fazer literário.

A linguagem do livro não é linear; ela opera por movimentos fragmentados, cortes e derivações, mais parecendo um “mapa” que se desenha enquanto é percorrido do que um texto com começo-meio-fim. O livro coloca o leitor em constante atividade de reconstrução entre saltos narrativos ou discursivos.

Temas abordados

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Tematicamente, a obra investiga questões sobre a própria poesia, sobre a linguagem como resistência e sobre a identidade do eu que escreve e do eu que lê. 

A metáfora do título “teste de resistores” pode ser entendida como um teste à resistência por meio da poesia e, por extensão, à resistência do leitor diante de uma escrita que não se alicerça em predefinições.

O livro reflete sobre linguagem, memória e cidade, tecendo múltiplas referências a outros autores, filmes e experiências culturais. A presença de citações e interlocuções cria um campo intertextual vasto, em que a poesia se entrelaça com a filosofia, o cinema e o cotidiano.

Voz poética em “Um teste de resistores”

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A voz poética que emerge no livro é marcada por um tipo de fluxo de consciência fragmentário: os poemas incorporam questionamentos internos, reflexões metapoéticas e descrições que parecem surgir mais de associações livres. 

Há uma mistura de gêneros e registros, entre poesia, ensaio, diário e crítica. A autora desafia o leitor a abandonar expectativas tradicionais de narrativa ou de poesia como sequência fechada de imagens, substituindo-as por uma experiência intermitente e relacional de leitura.

“Um teste de resistores” é uma obra que instiga o leitor, seja pela riqueza de referências, seja por seu fluxo descontínuo, seja por mover-se entre o íntimo e o teórico, criando uma experiência estética imersiva e singular. A obra de Marília Garcia é uma experimentação poética que tensiona a linguagem, o significado, a memória e a forma.

Escrita reflexiva e experimental

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Em “Um teste de resistores”, percebe-se que Marília Garcia constrói uma poesia reflexiva, na qual o poema é também o registro do caminho que se levou até ele. 

Os textos revelam um interesse pela ideia de recortar palavras, recomeçar a explicação de um poema já explicado, como se a escrita fosse um laboratório aberto. O poema se torna, assim, um espaço de pensamento em andamento, em que ler, escrever e reorganizar são gestos dinâmicos.

É a linguagem como tentativa e falha, como algo que não se fixa completamente. Perguntas como “o que quer dizer partir?”, “como é que se apaga uma pessoa?”, “riscar um mapa altera o percurso?” não buscam respostas definitivas e expõem a instabilidade do sentido. 

A poeta explora conceitos como ausência, deslocamento, tempo e memória, tratando-os como conceitos em aberto. O estilo de Marília Garcia se aproxima de um fluxo de consciência que avança por associações, interrupções e retomadas.

O texto é conversacional e carregado de densidade ao mesmo tempo. Há uma convivência constante entre o inteligível e a abstração, em uma ponte entre o pensamento filosófico e a experiência.

Em “Um teste de resistores”, narrar o processo é tão importante quanto o que se narra. A autora escreve como quem pensa em voz alta, expondo dúvidas e hesitações. O livro propõe, assim, uma forma de habitar o poema como espaço de reflexão e questionamento.

Informações

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Livro: Um teste de resistores
Autora: Marília Garcia
Ano de publicação: 2014
Editora: 7Letras
Páginas: 131
Idioma: Português

Sobre a autora

Marília Garcia é uma poeta, artista e tradutora brasileira nascida no Rio de Janeiro em 1979. Ao longo de sua carreira, publicou diversos livros de poesia, entre eles Engano geográfico, Um teste de resistores, Câmera lenta e Expedição: nebulosa, além de um livro de ensaios (Pensar com as mãos, 2025). 

Sua produção tem sido reconhecida no Brasil e no exterior, com traduções e edições em vários países. A autora recebeu prêmios importantes ao longo de sua carreira, sendo a primeira mulher brasileira a conquistar o principal Prêmio Oceanos de Literatura de Língua Portuguesa pelo livro Câmera lenta (2018). 

Além disso, foi agraciada com o Prêmio FNLIJ de melhor tradução para jovens e o Prêmio Icatu de Artes pelo conjunto de sua obra. Sua atuação também se estende ao campo editorial, tendo cofundado a editora independente Luna Parque e colaborado em revistas e projetos de poesia.

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