Engenheiro fantasma, de Fabrício Corsaletti, vencedor do Jabuti [Resenha]

A escrita de Fabrício Corsaletti em “Engenheiro Fantasma” se constrói a partir de uma grande liberdade imaginativa. O autor escolhe o soneto para dizer palavras que parecem nascer do improviso e do devaneio. 

A espontaneidade é central ao seu estilo: o poema avança como quem caminha sem mapa, mas sem perder o compasso. Há o rigor ritmado dos versos, mas ele não se impõe de modo ostensivo; está ali como uma engrenagem que sustenta a fluidez e o movimento interno do poema.

Proposta da obra

A proposta do livro é ousada: Corsaletti se coloca na pele de Bob Dylan e imagina uma versão ficcional do compositor vivendo em Buenos Aires, em um período não especificado.

Esse Dylan imaginado é um poeta, pensador e caminhante da cidade, que lança uma voz lírica própria e mescla o ritmo musical do compositor com a tradição da estrutura de sonetos.

O livro é composto por 56 sonetos cuidadosamente metrificados. Apesar da métrica tradicional e rigorosa, Corsaletti a usa de uma maneira em que os versos poderiam ser letras de música ou pequenas crônicas poéticas.

Esse formato confere ao leitor uma cadência sonora e reflexiva. Há um ritmo que guia a leitura, de forma a evocar o coração poético e livre do próprio Dylan.

Coloquialidade em forma de sonetos

Um traço marcante do estilo de Corsaletti é a naturalidade da voz. Quando fala de elementos insólitos, cenas improváveis ou narrativas que beiram o estranhamento, o tom é coloquial e confidencial.

O poeta escreve como quem conta algo à mesa de um café. Tal forma de se expressar cria proximidade com o leitor e dá a sensação de que os poemas acontecem no “agora”, no tempo presente da leitura, mesmo sendo atravessados por memória, sonho ou invenção.

O humor discreto e a ironia são outros elementos do estilo de Corsaletti. Mesmo quando o poema toca em solidão, desencanto ou perda, há sempre uma fresta de leveza, um comentário enviesado, uma imagem inesperada que impede o texto de se tornar pesado, sem recorrer ao dramatismo.

O estilo de Fabrício Corsaletti em “Engenheiro Fantasma” leva o leitor a entrar em um fluxo no qual sonho, memória e cultura se entrelaçam com naturalidade.

Ambientação dos poemas

Corsaletti não separa o sublime do trivial: uma figura icônica pode surgir ao lado de um gesto banal, um pensamento íntimo ou uma paisagem urbana. A justaposição é uma marca de seu estilo e confere aos poemas a textura contemporânea que representam.

Os poemas se movem por bairros e cafés, mas também por estados de espírito, afetos e identidades em trânsito. O “eu” que fala não é totalmente fixo: ele se desdobra, se observa de fora.

A escrita também se destaca pelo uso de referências culturais (música, cinema, cidades, personagens reais e imaginários) que aparecem misturadas ao cotidiano. 

A influência de Bob Dylan 

Mesmo que o livro não seja uma biografia de Dylan, ele captura a essência e o espírito do artista. Corsaletti é claro admirador de Dylan e até o indicou como a pessoa viva que mais admira em entrevista.

Dylan é conhecido por letras enigmáticas, metáforas que nos alcançam pela sensibilidade e uma musicalidade que reaviva o espírito, e “Engenheiro Fantasma” traduz essa musicalidade para o universo das experiências comuns e das pequenas epifanias diárias.

A ideia do livro surgiu a partir de um sonho do autor, no qual ele visualizou Dylan vivendo em Buenos Aires. Esse sonho o impulsionou a escrever em sequência os sonetos que compõem a obra, que foi escrita em dez dias.

Prêmios e reconhecimento

Além de vencer na categoria Poesia, o livro foi agraciado com o principal reconhecimento literário brasileiro — o Livro do Ano no Prêmio Jabuti de 2023, que incluiu R$ 70 mil e uma viagem à Feira do Livro de Frankfurt de 2024.

O prêmio coloca “Engenheiro Fantasma” em destaque na poesia contemporânea, sendo uma obra que redefine o que a poesia pode evocar, tanto formalmente quanto em alcance poético.

Informações

Livro: Engenheiro fantasma
Autor: Fabrício Corsaletti
Ano: 2022
Editora: Companhia das Letras
Idioma: Português

Sobre o autor 

Fabrício Corsaletti nasceu em em 1978, no interior de São Paulo, e já publicou mais de 20 livros em diferentes gêneros, incluindo poesia, crônicas, romance e literatura infantil.

A partir de 1997 ele viveu em São Paulo, onde se formou em Letras pela Universidade de São Paulo, e nos anos 2000 construiu uma carreira literária diversa. Também atuou como colunista da Folha de S.Paulo.

Corsaletti recebeu reconhecimento importante no cenário literário brasileiro. Além de ter vencido o Jabuti em 2023, o autor foi vencedor do Prêmio Bravo! de Literatura, pelo livro Esquimó, da editora Companhia das Letras.

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