Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende: diário, peregrinação e autodescoberta

A literatura brasileira contemporânea destaca-se por sua capacidade de investigar as frestas da sociedade e dar amplitude a vivências frequentemente silenciadas pelas narrativas tradicionais, como ocorre no livro “Quarenta dias”, de Maria Valéria Rezende.
Ao focar nas metamorfoses subjetivas e nos conflitos sociais, a ficção da autora estimula o leitor a encarar as complexas dinâmicas de pertencimento, a busca por autonomia e as contradições que moldam o espaço urbano e as relações interpessoais.
Nesse panorama, a análise desta obra revela como a palavra escrita pode se tornar um potente instrumento de provocação e sensibilidade. Este livro certamente é uma das produções expressivas do romance nacional atual, cuja autora possui um vasto percurso intelectual e uma voz única que nos proporciona agradáveis momentos de leitura.
Sumário do post
Sinopse
Em “Quarenta Dias”, Maria Valéria Rezende narra a história de Alice, uma professora aposentada que leva uma vida tranquila em João Pessoa até ser pressionada pela filha, Norinha, a se mudar para Porto Alegre para ajudá-la a cuidar de um futuro neto.
No entanto, os planos mudam repentinamente, e Alice se vê sozinha em uma cidade desconhecida, distante de tudo o que construíra ao longo da vida.
Sentindo-se deslocada e sem perspectivas, ela começa a registrar seus pensamentos em um caderno escolar com a imagem da Barbie na capa, tornando a escrita uma companhia que a ajuda a enfrentar o sentimento de abandono e solidão.
Quando descobre que o filho de uma amiga sua desapareceu em Porto Alegre, Alice decide procurá-lo, mesmo sem saber ao certo se ele ainda está vivo ou onde pode ser encontrado.
A busca a leva por ruas, ocupações, albergues, rodoviárias e bairros periféricos, aproximando-a de pessoas invisibilizadas pela sociedade, como migrantes, trabalhadores informais e moradores em situação de rua.
Durante essa peregrinação, ela passa a sobreviver com poucos recursos, enfrenta a fome, o frio e o medo, ao mesmo tempo em que revê suas próprias convicções e descobre uma cidade muito diferente daquela imaginada por quem a observa de longe. Ao longo desses quarenta dias, a jornada de Alice se transforma em uma busca existencial.
A convivência com personagens marginalizados, os encontros inesperados e as dificuldades que enfrentou fazem com que a protagonista questione padrões ligados à velhice e ao pertencimento. Maria Valéria Rezende constrói um romance que alia crítica social, sensibilidade e humor.
Temas abordados
Além da jornada individual da protagonista, “Quarenta Dias” desenvolve uma reflexão sobre o envelhecimento e os papéis sociais atrelados às mulheres. A autora questiona a ideia de que a terceira idade deve ser vivida apenas em função da família, especialmente em relação aos cuidados com os filhos e netos.
Alice enfrenta o conflito entre corresponder às expectativas daqueles que a cercam e preservar sua autonomia. O livro revela como a sociedade muitas vezes reduz mulheres a funções previamente determinadas.
O romance discute a questão da liberdade e como o processo de envelhecer pode representar uma oportunidade de reinvenção pessoal. Outro conjunto de temas envolve os deslocamentos geográficos e a invisibilidade daqueles que vivem à margem.
Neste percurso entre diferentes espaços urbanos, a narrativa revela um Brasil marcado por desigualdades, pobreza e precarização das relações sociais.
No decorrer da obra, em vez de apresentar julgamentos explícitos, Maria Valéria Rezende permite que as experiências vividas pela protagonista revelem, por si mesmas, as contradições da sociedade brasileira.
Estilo da autora
Em “Quarenta Dias”, a autora constrói um enredo marcado pela oralidade e pela proximidade com a voz da protagonista. Ela faz do caderno em que Alice registra suas experiências o principal recurso estrutural do romance.
O texto é uma espécie de diário íntimo dirigido à boneca Barbie. Essa escolha confere espontaneidade ao relato e permite que pensamentos, lembranças, indignações e observações sobre a rotina se entrelacem de maneira fluida e natural.
Ao mesmo tempo, a linguagem incorpora diferentes registros em torno de uma narrativa polifônica que desperta curiosidade pela personalidade da protagonista. Confira um dos trechos do livro:
“Ninguém vai ler o que escrevo, mas escrevo. É a única maneira de voltar inteiramente, se é que ainda dá pra fazer meia-volta-volver. Mas tento, por isto deixo quieto lá no quarto-de-hóspedes-escritório o meu dinossauro eletrônico tão bem conservadinho e quero mesmo é o manuscrito, deixar escorrer tudo direto do corpo pra caneta e pro papel.
A única coisa que tenho ânimo pra fazer agora. O único jeito possível de livrar-me deles, expulsá-los do espaço que ocupam dentro de mim e recuperar minha própria presença é reduzi-los a tinta e papel e encerrá-los numa gaveta, ou tacar fogo pra sempre. Será?”.
A prosa da personagem alterna momentos de espirituosidade, ironia e ira, mantendo um ritmo dinâmico que une descrições, diálogos e reflexões pessoais.
Informações

Livro: Quarenta dias
Autora: Maria Valéria Rezende
Editora: Alfaguara
Edição: 2014
Ano de publicação: 2014
Sobre a autora
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), e construiu uma trajetória ao unir literatura, educação popular e atuação religiosa.
Integrante da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho desde 1965, dedicou grande parte de sua vida à formação de educadores e a projetos de alfabetização em comunidades urbanas e rurais, tanto no Brasil quanto em outros países.
Formada em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy, na França, em Pedagogia pela PUC-SP e mestre em Sociologia pela Universidade Federal da Paraíba, estabeleceu-se em João Pessoa.
Embora tenha publicado seu primeiro livro de ficção apenas em 2001, aos 59 anos, com “Vasto Mundo”, consolidou-se rapidamente como uma das vozes mais relevantes da literatura brasileira contemporânea, especialmente por retratar personagens invisibilizados e questões sociais com sensibilidade e profundidade.
A escritora recebeu importantes distinções literárias. Ela conquistou o Prêmio Jabuti por “Quarenta Dias”, vencedor tanto na categoria Romance quanto como Livro do Ano de Ficção em 2015.
Em 2017, recebeu o prestigiado Prêmio Casa de las Américas, por “Outros Cantos”, obra que também lhe rendeu o Prêmio São Paulo de Literatura. Rezende é autora também do prestigiado livro “O voo da guará vermelha”.
Sua produção continua sendo reconhecida pela capacidade de conciliar qualidade literária, compromisso social e um olhar atento às experiências humanas que costumam permanecer invisíveis.
PS.:Este conteúdo contém links que divulgo como associada da Amazon. Apenas recomendo livros que leio e que despertam meu interesse genuíno pela obra.
